segunda-feira, agosto 15, 2005

Consciência

Entre 1994 e 2004, 35 efectivos da PSP cometeram suicidio . A realidade poderá ser ainda pior que a contabilização estatística . Estas estatísticas oficiais só contabilizam casos de mortes com arma de fogo ou por enforcamento , não incluindo por exemplo, suícidio por ingestão de comprimidos e o crescente número de casos de alcoolemia e toxicodependência.
Valter Machado , agente principal da PSP de Setubal, casado , pai e avô, com a vida organizada e sem problemas financeiros conhecidos , com uma folha de serviços e um comportamento exemplar ( no currículo de Machado só existem baixas por um problema no joelho ) nunca precisou de acompanhamento psicológico fosse pelo que fosse . Em Fevereiro comemorou o 50.º aniversário com uma grande festa para a família e os amigos. Tinha 36 anos e nove meses de serviço (já com as percentagens atribuídas à PSP ). No final do mês tinha as férias dos seus sonhos marcadas para Cuba.
Considerado pelo comandante e colegas como um agente “cumpridor e socialmente correcto” ,com solidas amizades entre colegas e conhecidos , juntou-se a esta fatídica estatística .
Valter Machado saiu do serviço às 17h00. Ainda esteve com um colega que não lhe notou qualquer comportamento suspeito. Uma hora depois, Valter escreve um bilhete de despedida à mulher e deixa-o em cima da mesa . O recado dizia que a amava e que ia para Fátima acabar com a vida. Mete-se no seu automóvel e ruma para Fátima. A mulher chega a casa e depara-se com o bilhete. Pega no telemóvel e tenta fazê-lo mudar de ideias. O agente diz-lhe que a “ideia” não lhe sai da cabeça.
Ainda faz um telefonema ao seu segundo comandante, informando-o da sua decisão. “Vou para Fátima e vou suicidar-me.” O pânico instalou-se no edifício da polícia.
A PSP de Setúbal informa a Brigada de Trânsito e a PSP de Fátima das características do carro. O segundo comandante põe-se a caminho, sempre em contacto com Valter, para o tentar demover.
Em Fátima, o agente compra a imagem de um santo e volta para Setúbal. À 01h30 fica incontactável. Valter estaciona o carro à frente da PSP meia hora depois. O desfecho já o conhecemos: Suicidou-se .
Num bilhete escreveu: “Adeus reforma, adeus amigos”.
Terminou assim, da pior forma, uma corrida contra o tempo que durou oito horas, e a vida de um ser humano esmagado por decisões políticas de governantes sem um mínimo de consideração ou respeito pelo povo que os escolheu e neles depositou a confiança para o governar .
Em casa o agente manifestava sérias preocupações pelo facto de ter pedido a reforma , a que tinha todo o direito, há meses, e de ainda não ter recebido uma resposta.
Valter Machado não seria abrangido pela reforma do Governo.

Posta a notícia assim , podemos ser levados a encarar este episódio que ceifou a vida a um ser humano como tantos outros tristes episódios do nosso dia a dia .
Mas será assim ? Não devemos olhar para ele noutra prespectiva ?
Já perderam um minuto a pensar no trabalho fundamental que tem que ser feito pelas nossas forças da ordem no combate a criminalidade e garantir a segurança de todos , nomeadamente GNR e PSP , e analisaram as condições que são dadas a essas pessoas para o executarem ?
Há anos que as condições de trabalho , sociais e humanas das nossas forças da ordem vêm-se degradando .
Perante um crescendo da criminalidade tanto em quantidade de crimes, como na crescente violência com que são praticados , na crescente modernidade e poder de fogo das armas utilizadas pelos criminosos , pela desautorização e falta de respeito com que as forças da ordem são tratadas por quem deveria e tinha o dever em primeiro lugar defende-las e dar-lhes condições de trabalho , pelo desgaste que uma vida feita por turnos ao sabor das intempéries e totalmente insegura , nunca sabendo se voltará pelos seus próprios pés a casa depois do serviço cumprido , postos diáriamente á frente de criminosos sem o mínimo de respeito pela vida humana que os vêm como alvos , sujeitos a serem crucificados pelas chefias , magistrados e imprensa se utilizarem a sua arma em auto defesa e a tornarem-se eles próprios perante os tribunais e os media os criminosos se abaterem para se defenderem no cumprimento do dever um criminoso , sendo sujeitos a processos disciplinares e de averiguações como de criminosos se tratassem , a ver a escumalha criminosa apanhada em flagrante delito e que prenderam arriscando a própria vida a serem soltos por um qualquer magistrado e a rirem-se deles nas próprias caras com total impunidade ? A ter de pagar a sua própria farda, a ter de prestar contas por qualquer equipamento estragado ou perdido, utilizado no cumprimento do dever , a conduzir sem seguro as viaturas na via publica sendo eles próprios os responsáveis pela sua reparação se na perseguição de um criminoso ou no socorro a uma vitima tiverem um acidente ou partirem a viatura .
Os atrasos de pagamento dos serviços gratificados , a que os profissionais não se podem negar , como por exemplo o trabalho feito em eventos desportivos , cifra-se em alguns casos em mais de um ano após o serviço ser efectuado assim como o não pagamento das horas efectuadas para além do horário normal de trabalho como qualquer outro cidadão.
Fazem parte de justas e antigas reenvidicações da polícia a adequação e modernização dos uniformes tanto relativamente ao tipo de tarefa a executar como ao clima da região onde o serviço é prestado , dotar a Polícia de armamento que vá ao encontro da natureza das suas missões, bem como das zonas de maior ou menor perigosidade, dotá-la de um parque automóvel de acordo com as exigências de serviço e acabar de vez com o actual parque totalmente inadequado e envelhecido , uma rede de comunicações funcional que deve incluir a rede de informação policial, que melhore as condições de defesa da segurança pública e, paralelamente, sirva de apoio à acção de cada um dos agentes que está no exterior, acompanhando a sua actuação e as condições em que opera, servindo para lhe dar o reforço quando se torne necessário, ou para transmitir as informações que se revelem necessárias, dotar as polícias de uma base de dados que melhore a sua actuação, onde possam ser organizados e transmitidos os dados referentes a viaturas roubadas, elementos sobre crimes e criminosos, dados legais, etc. Quanto a instalações deveria ser uma prioridade do governo dotar as forças da ordem de quarteis e esquadras com um mínimo de condiçoes de trabalho , criando, entre outras condições, locais em perfeitas condições de higiene e salubridade, para serem utilizados pelos profissionais . Devem os agentes da ordem receber uma remuneração justa que tenha em conta os factores específicos da actividade policial e que lhes garanta a segurança económica e o emprego necessários, a fim de evitar que sejam objecto de corrupção, garantindo-se assim a sua integridade. Não sofrerem, por força da sua condição de autoridade , qualquer restrição ou limitação dos direitos e liberdades concedidos por lei, como pessoas ou cidadãos. Beneficiarem de um horário, de um regime de trabalho e de condições de trabalho que lhes permitam manter as boas condições físicas e psicológicas necessárias para o exercício da sua difícil e importante missão.
Quanto á idade de reforma que o governo quer para estes profissionais, deixo aqui um repto : Retirem do governo e da sala da assembleia da republica todos os deputados com menos de 50 anos de idade ; Peguem em 10 seres humanos jovens e saudáveis na casa dos 20 , 30 anos e soltem-nos lá dentro ; Agora peçam aos senhores que lá ficaram com mais de 50 anos de idade , já com a barriguita e a condição fisica da idade , que corram atras deles e os apanhem ! Imaginem o espectaculo ! E querem esses senhores que um profissional de segurança ande até á idade de reforma que pretendem a calcorrear as ruas das cidades noites e dias a fio vestidos com uniformes totalmente inadequados ( sim , porque não podem de andar no verão debaixo de sol de calções e chinelos como os nossos senhores governantes andam na praia dos tomates , nem de sobretudo no inverno ), e a correr atras de criminosos ?
Antes de escrever sobre este assunto , encontrei estes dois comentários que a seguir coloco,e que me fizeram resolver tambem escrever , a um post sobre este assunto do meu amigo António no seu blog . Não sou um fervoroso apoiante nem "morro de amores" pelas forças da ordem , até porque , inerente á sua função de fazer cumprir algumas das leis que muitas vezes saem das delirantes cabecitas dos nossos incompetentes governantes políticamente correctos, muitas vezes me sinto “do outro lado da barricada” , mas não posso deixar de os defender na medida do possível nas suas justas e necessárias aspirações nem humanamente de deixar de ser solidário por quem muitas vezes arrisca a própria vida para garantir a minha , dos meus e a segurança de todos nós:

Gerónimo escreveu : Dramático...o que queria transmitir este homem??? Preocupante vindo de alguém com uma carreira exemplar...ele cumpriu com as expectativas que criou aos seus superiores e politicos. Os politicos FALHARAM HIPÓCRITAMENTE E DESCARADAMENTE com as expectativas que criaram a este ser humano. Desconhecia esta história, e preferia não a ter lido...quantos mais vão ter que se suicidar para que os hipócritas possam receber grandes reformas com meia duzia de anos em cargos públicos!!!!!!!!!!!!!!!! Sexta-feira, Agosto 05, 2005.
Cesaria Augusta escreveu : Para encontrar esta historia no correio da manhã, é pesquisar Valter Machado no google. O homem deve ter dado o litro para aos 50 anos ter 36 anos e 9 meses de trabalho, trabalhou muitas horas extraordinárias, talvez de noite também. Viver esperando o futuro, o dia em que realizaria o seu sonho. os gajos do governo mudam a legislação e o homem não aguentou!! É que há profissões em que realmente as pessoas só aguentam sonhando com a paz da reforma, sabendo que cada dia em que dão o litro contará para a reforma. E de repente, fica tudo em aguas de bacalhau. o esforço não valeu nada. tinha trabalhado como um cão e não contou para nada!!! Quinta-feira, Agosto 11, 2005.
Só uma coisa , um desejo , posso aqui deixar aos nossos governantes e políticos: Que a vossa consciência, se a tiverem , lhes tire as horas de sono e lhes faça sentir na pele o que este homem sentiu.